quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Perdas e Ganhos


Ângela era uma senhora recém chegada na chamada ‘Terceira Idade’. Havia completado 60 anos há poucos meses. Tinha duas filhas e um filho – todos adultos, casados, tocando as suas vida.  Ela havia ficado viúva recentemente e ainda não havia superado a dor de alguém que havia sido seu companheiro pro cerca de 40 anos. Vivia angustiada por conta disso. Mas, não podia alterar o que aconteceu.
Seus filhos tentavam consolá-la, mas ela não ouvia o que eles tentavam lhe dizer. Acreditava que eles não sabiam, não conseguiam imaginar exatamente o que ela  sentia, o momento que estava vivendo.  Convidaram-na para ela ir morar junto com eles, pelo menos nessa fase inicial, e ela não aceitou. Não queria tirar a privacidade deles e, especialmente a sua própria.
Essa preocupação em consolá-la fazia com que os amigos do ‘casal’ a procurassem frequentemente. Ela percebeu que eles a faziam a se sentir ainda triste, mesmo porque, atualmente, a maioria tinha uma visão negativa e amarga da vida.  Ela passou a evitar falar com eles e a recusar os convites que lhe eram feitos para isso ou para aquilo.
Além de tudo isso, sua saúde começou a preocupá-la também.  Já não era a mesma de alguns anos atrás. Sentia frequente algumas dores, especialmente nas articulações - já sentia antes, mas agora parecia terem se agravado.
Que situação... Nem o conforto que uma religião poderia dar estava ao seu alcance. Ela nunca tivera uma formação religiosa, nunca se interessou. Então...
Oportunamente, numa de suas frequentes idas ao Supermercado – o único passeio que ainda a atraia – foi abordada por um senhor, mais ou menos da mesma idade que ela, que lhe devolveu um produto que ela havia esquecido num dos balcões da loja.  Agradeceu a gentileza  e começaram a conversar, após se apresentarem.
Ele se chamava Raul, era um médico e  professor universitário aposentado, também viúvo - mas já há vários anos. Muito extrovertido e alegre, discorreu sobre diversos temas, de forma tão cativante, descompromissada, que ela sentiu um prazer muito grande em estar na companhia de alguém - coisa que não sentia já há muito tempo.
Ao se despedirem, ele a convidou par saírem, irem jantar juntos na próxima 6ª feira.  Ângela lhe disse que fazia tanto tempo que não saia que nem tinha mais roupa adequada para ir aonde ele pretendia levá-la. Raul ponderou que, na sua opinião, se ela não tinha roupa adequada, deveria comprar. E ainda, que comprasse a melhor e mais bonita roupa que encontrasse, que fosse ao cabelereiro, à manicure. Enfim, que fizesse tudo o que julgasse necessário.  Tinha certeza que isso iria fazê-la se sentir bem, e que ela merecia.
Ela concordou. Realmente, merecia. Afinal dinheiro não era problema. Ela tinha as economias que fizera junto com o marido. Por que não desfrutar desse dinheiro? Deixar guardado para, no futuro, ser desfrutado por quem, provavelmente, não teria a menor noção do sacrifício que foi feito para consegui-lo? Reinvestir melhor esse dinheiro? Nem pensar. Ela não era especialista e mesmo que fosse - por mais interessante que possa parecer o negócio, os riscos sempre existem, e acabam por trazer problemas.  Nessa fase da vida, é hora de ter muita paz e tranquilidade.
Ângela foi às compras. Procurou comprar roupas e acessórios adequados para a sua idade. Não queria aparentar uma modernidade que não tinha nada a ver com ela.  Além disso, deu vazão à sua vaidade. Foi ao cabelereiro, fez as unhas e comprou o perfume que sempre gostou de usar. Joias e acessórios ela já tinha. Podia não ser a bela jovem que havia sido um dia , mas, pelo menos, era bem conservada.
Raul, no dia e horários marcados apanhou Ângela em casa e foram ao jantar. Era  num restaurante que ele frequentava, onde encontraram vários amigos também ‘habitués’ do local.
O jantar e a companhia foram ótimos. Ao se despedirem, Raul lhe disse  que jogava tênis duas vezes por semana, numa academia do bairro, e a convidou para ir junto com ele na próxima vez. Ela aceitou.
No dia combinado foram juntos para a academia. Lá ela começou a jogar e percebeu que, apesar de tantos anos tivessem passado desde a última vez que jogou, não havia perdido o jeito – ainda era uma boa jogadora. Afinal ela havia sido campeã paulista de duplas quando jovem.  O exercício a fez se sentir muito bem, além da companhia de Raul e de seus amigos, da mesma idade que eles, todos muito simpáticos e alegres.
Redescobriu o prazer de ouvir - coisa que não praticava  já há bastante tempo.  Respondia brevemente sobre o que lhe perguntavam, não se lamentava de nada e não criticava – muito pelo contrário.
A partir daí, sentiu que a sua pior fase estava passando.  Os convites para participar disso ou daquilo foram surgindo, e ela aceitava aqueles que lhe interessassem. Algumas vezes, até desejou ter sido convidada, e não foi. Também... Ela havia deixado de fazer e de aceitar convites por tanto tempo...
Uma ocasião foi convidada por uma amiga para irem juntas a uma Instituição Beneficente Espírita. Foi, e ficou surpreendida com o que encontrou lá: pessoas desprendidas, trabalhando gratuitamente para ajudar àqueles que necessitavam de apoio, orientação. Tudo sem fanatismo religioso, sem ostentação, sem cobranças ou ameaças. Admirou-se, foi outras vezes e, com o tempo, acabou se envolvendo nas atividades sociais do grupo, o que está sendo muito gratificante.  
Suas amigas mais próximas começaram a estranhar a mudança do eu comportamento - embora tenha sido para melhor -, e a questionavam sobre o que aconteceu. Ângela desconversava e não respondia. Ela não fazia caso do que diziam e muito menos do que do pensavam dela. A sua vida, passada, presente ou futura, importam apenas para ela, a ninguém mais.  Nestas alturas da vida, o mais importante é a história que você já construiu até aqui. Agora é hora de comemorar, o mais suave, em paz e feliz possível.
Começou espontânemanete a frequentar mais a casa dos filhos – apenas como visita ou hóspede eventual –, e aprendeu a ouvi-los mais também. Percebeu que eles - os jovens - estão mais preparados para a vida do que ela estava quando tinha a idade deles.  Com a convivência, procurando uma maior integração, parou de falar ‘no meu tempo'.  Afinal o tempo dela é o agora. É claro que não renegava o seu passado; mas com saudade moderada e feliz por tê-lo vivido.  Esse comportamento a fez procurar manter-se atualizada. Passou a ler livros, jornais, a ouvir rádio, assistir bons programas de TV, a participar das redes sociais, a responder e-mails,...
Passou a sorrir, a rir com maior frequência. Afinal, ela tinha sorte por estar tendo uma vida longa. A morte só será uma nova e incerta etapa, assim como foi incerta toda a sua vida.  
Atualmente ela e Raul estão vivendo um relacionamento mais próximo, embora ainda continuem, cada qual, morando na sua própria casa. Ângela recuperou o prazer de viver e distribui esse sentimento para todos com quem se relaciona.  Descobriu que as pessoas nunca são velhas, enquanto lhes restar inteligência e afeto.

 “A idade é uma questão de mente sobre a matéria. Se você não se importa, a ameaça não se realiza.”  Mark Twain

(JA, Set16)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Morrer


"A morte, por si só, é uma piada pronta.  Morrer é ridículo.
Você combinou de jantar com a namorada,  está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim?
E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente?
Não sei de onde tiraram esta ideia: MORRER!!!
A troco? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam para nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar para o vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente...
De uma hora para outra, tudo isso termina numa colisão na freeway,  numa artéria entupida, num disparo feito por um delinquente que gostou do seu tênis. (Ou afogado)
Qual é?  Morrer é um chiste.
Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém,  sem ter dançado com a garota mais linda,  sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida.
Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas.
Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas,  a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira.  Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu.
Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce,  caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina,  começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer.
Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã.
Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas.
Ok, hora de descansar em paz.
Mas antes de viver tudo? Morrer cedo é uma transgressão,  desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero.  E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.
Por isso viva tudo que há para viver.  Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da Vida... Perdoe... Sempre!!!
Deixe espalhado pelo caminho da sua vida amor, quanto mais lágrimas rolarem quando você se for, mais certeza o mundo terá que o tempo que você passou aqui valeu a pena!”      
Pedro Bial, a propósito da morte do ator Domingos Montagner.


(JA, Set16)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

A idade chega; mas que coisa boa!


"Eu nunca trocaria meus amigos surpreendentes, minha vida maravilhosa, minha amada família, por menos cabelo branco ou uma barriga mais lisa.
Enquanto fui envelhecendo, tornei-me mais amável para mim, e menos crítico de mim mesmo.
Eu me tornei meu próprio amigo. Eu não me censuro por comer biscoito extra, ou por não fazer a minha cama, ou pela a compra de algo bobo que eu não precisava, como uma escultura de cimento, mas que parece tão 'avant garde' no meu pátio. Eu tenho direito de ser desarrumado, de ser extravagante.
Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento.
Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo ou jogando no computador até as quatro horas e dormir até meio-dia? Eu dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 60 & 70. E se, ao mesmo tempo, desejar chorar por um amor perdido... Eu choro.  Vou andar na praia em um short excessivamente esticado sobre um corpo decadente, e mergulhar nas ondas com abandono, se eu quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros.
Eles, também, vão envelhecer.
Eu sei que eu sou às vezes esquecido. Mas há mais, algumas coisas na vida que devem ser esquecidas. Eu me recordo das coisas importantes.
Claro, ao longo dos anos meu coração foi quebrado. Como não pode quebrar seu coração quando você perde um ente querido, ou quando uma criança sofre, ou mesmo quando algum amado animal de estimação é atropelado por um carro? Mas corações partidos são os que nos dão força, compreensão e compaixão. Um coração que nunca sofreu, é imaculado e estéril, e nunca conhecerá a alegria de ser imperfeito.
Eu sou tão abençoado por ter vivido o suficiente para ter meus cabelos grisalhos, e ter os risos da juventude gravados para sempre em sulcos profundos em meu rosto.
Muitos nunca riram, muitos morreram antes de seus cabelos virarem prata. 
Conforme você envelhece, é mais fácil ser positivo. Você se preocupa menos com o que os outros pensam. Eu não me questiono mais. Eu ganhei o direito de estar errado.
Assim, para responder sua pergunta, eu gosto de ser velho. A velhice me libertou.
Eu gosto da pessoa que me tornei. Eu não vou viver para sempre, mas enquanto eu ainda estou aqui, eu não vou perder tempo lamentando o que poderia ter sido, ou me preocupar com o que será. E eu vou comer sobremesa todos os dias (se me apetecer).

Que nossa amizade nunca nos separe porque é direto do coração!"

De um Juiz trabalhista, aposentado, de Manaus.

(JA, Set16)




domingo, 19 de junho de 2016

Filme "Um amor de vizinha"




Estreou em julho de 2014
(And So It Goes)

Direção: Rob Reiner
Elenco: Michael Douglas, Diane Keaton, Sterling Jerins, Frances Sternhagen, Rob Reiner, David Aaron Baker, Scott Shepherd.
Gênero: Comédia, Drama, Romance
Distribuidora: Playarte Pictures

Um corretor de imóveis egocêntrico (Michael Douglas) vive tranquilamente até que seu filho, com quem ele não fala há anos, pede que ele cuide da sua neta por um tempo. Sem a menor ideia de como proceder com uma criança que ele mal conhece, ele pede ajuda a sua vizinha (Diane Keaton) para cuidar da menina.

Assista ao trailer

quarta-feira, 15 de junho de 2016

sábado, 11 de junho de 2016

Vivendo com a Demência de Alzheimer: Parte I - como reconhecer e sinais de alerta

Video elaborado pela Profa. Dra. Elisabete Castelon Konkiewitz com orientações práticas para cuidadores de pacientes com a demência do tipo Alzheimer.

 

Livro "O Lugar Escuro" - como lidar com Alzheimer

No livro 'O Lugar Escuro', a jornalista Heloísa Seixas relata o relacionamento entre ela e a mãe, que teve a doença. Segundo a escritora, quem tem um parente com essa condição precisa estar pronto para imprevistos.

 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O asilo dos meus sonhos


    ‘Haverá quintal, jardins e árvores por todos os lados’

Um dia, ainda vou construir um asilo para velhos. Mas a primeira medida que vou tomar será achar um outro nome para asilo, que não lembre morredouro, como proclamou Simone Beauvoir, no livro Envelhecer, para definir um lugar onde os velhos são depositados para morrer. Não vou mudar só o nome, mas também a filosofia. Vou pintar as paredes do asilo com as cores do arco-íris, abusar dos amarelos, laranjas e vermelhos. Vou abolir os azulejos brancos, insípidos, frios como lápides. Colocar girassóis nas janelas. Vou plantar grama por toda a parte interna da casa, para que os velhos andem descalços e sintam a relva roçar os pés como cócegas.
No asilo que vou construir, haverá quintal, jardins e árvores por todos os lados. As janelas estarão sempre abertas para o vento que vai entrar pelos cômodos, passear pelos cabelos dos idosos, levantar as saias e os chapéus, arejar os corações com o aroma das manhãs. Colocarei uma fonte luminosa em cada corredor. Nada de bingo e orações em excesso. Os idosos da minha comunidade vão pintar sóis ao despertar de cada dia, com os próprios pés, que serão mergulhados em baldes de tinta. O ritual será como um escalda-pés de cores. Vou ungir os velhos com a minha fé num mundo novo. No meu asilo, que definitivamente não terá esse nome, não permitirei capelas por todos os lados, como se os idosos já estivessem à beira da morte. Nada de missa demais, cânticos de qualquer igreja - com honrosa exceção para o canto gregoriano dos monges beneditinos -, pois os idosos precisam de bancos ao ar livre e não de sepulcros.
Vou pintar o teto de azul e colocar estrelas fosforescentes, para que eles durmam com os olhos nas constelações. Não haverá escuridão nem gritos depois que as luzes se apagarem, mas o brilho das estrelas do teto, sob o ruído suave e persistente das fontes. Todos os idosos poderão ter um animal de estimação, um pássaro, uma tartaruga, um cão, um gato. Mesmo que de pelúcia. Todos poderão verter lágrimas. O choro será livre, em nome dos filhos que os abandonaram sem deixar endereço. Haverá o dia de chorar pelos filhos que enterraram os pais vivos nos asilos. Neste dia, todos os idosos poderão xingar, gritar, deixar toda a raiva sair para fora, como um mar de ondas revoltas.
Os almoços serão sempre festivos e a comida terá um sabor especial, com temperos suaves. Não dispensarei alho, cebola, manjericão, alecrim, sálvia, salsinha, cebolinha. Com gosto de viver, para que o paladar se torne cada vez mais apurado. Nada de pratos de alumínio ou de plásticos. Os idosos vão comer em pratos que escolherão. Haverá o dia da sobremesa que tem gosto de infância, como ambrosia, arroz doce, bala delícia, brigadeiro, amor em pedaços.
O café da manhã será uma celebração. Amanhecer na velhice é mais do que um privilégio, é festejar mais um dia de vida, mais uma dádiva, que será posta na mesa junto com o café com leite, pães feitos por Magui, no Sítio Sertãozinho, com ervas e boas intenções, além de iogurte, cereais, mel e frutas. O café da manhã vai durar uma eternidade. Será uma espécie de ritual, com músicas da nova era para despertar os sentidos. Depois, haverá aulas de alongamento e todos irão para o jardim, tomar sol e brincar. Haverá até um quarto de brinquedos, pois os velhos se tornam crianças. É a idade do desconhecimento, de falar e de fazer o que tiver vontade. Que o diga dona Conceição, de 75 anos, que vive num asilo da capital. Ela não se desgruda de uma enorme boneca de borracha. Ela só encontrou a paz da velhice, depois que teve uma boneca entre os braços, para cuidar, proteger, ser útil. A boca entreaberta da boneca revela que Conceição não a deixa com fome. Pedacinhos de pão escorregam pela boca da bonequinha.
No meu asilo, que não terá esse nome definitivamente, não será pecado envelhecer, ter rugas e cabelos brancos. Para isso, vou pedir ajuda aos contadores de história, aos Doutores da Alegria, aos Anjos da Dança, aos terapeutas de Alexandria e holísticos, aos tanatologistas, aos psicólogos das oficinas da memória, aos mágicos, palhaços, aos artistas, para que se revezem no ofício de transmutar a vida. No meu asilo, que não terá esse nome definitivamente, os velhos vão poder namorar, casar, separar, porque o sexo não é coisa de jovem. O desejo não envelhece nunca, nem morre. Haverá bangalôs para os casais enamorados, a praça do footing, da pipoca e do algodão-doce e até um parque de diversões, com lago e patos. Haverá saraus de poesia, com declamação de poemas longos, infindáveis.
Os jovens farão de seus braços bengalas para os velhos. Juntos, eles caminharão pelas alamedas, serão companheiros nessa viagem pelo tempo de viver. O passado e o futuro, sem confronto, porque o respeito será traduzido em abraços, rodas de conversas, música, malabarismo e até fogueiras nas noites de inverno, com canjica, quentão e quadrilha. E, quem sabe, um copo de vinho tinto. Haverá óleos essenciais para massagens curativas. Os corpos dos velhos exalarão o doce perfume de sândalo.
Eles poderão rabiscar as paredes. Cada morador dessa comunidade poderá levar para o seu quarto, lembranças de antigas casas: panelas, porta-retratos, quadros, cadeiras de balanços, xícaras de porcelana, cristais, álbuns de fotos, linhas, baús, xales, tudo o que levar ao aconchego, todas as recordações afetivas. Ninguém poderá destituir os mais velhos de seus pertences e recordações. Nessa comunidade, com certeza, eu levaria até a minha mãe, para morar no andar debaixo do meu sótão, bem junto de mim. Quando eu estiver lá em cima, escutarei o barulho da cadeira de balanço a ranger ternura, exalar história e sabedoria por todas as frestas desse asilo que não terá esse nome nem cheiro de solidão.”   Déa Januzzi
Esta crônica foi publicada originalmente no jornal Estado de Minas



(JA, Abr16)

terça-feira, 29 de março de 2016

Dia da mentira


  
Há muitas explicações para o 1º de abril ter se transformado no dia da mentira, também conhecido como dia das petas, dos tolos ou dia dos bobos. Uma delas diz que a brincadeira surgiu na França. Desde o começo do século XVI, o Ano Novo era festejado no dia 25 de março, data que marcava a chegada da primavera.  As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1 de abril.
Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX de França determinou que o ano novo seria comemorado no dia 1 de janeiro. Alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano iniciava em 1 de abril. Gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. Essas brincadeiras ficaram conhecidas como ‘plaisanteries’.
Em países de língua inglesa o dia da mentira costuma ser conhecido como April Fools' Day, "Dia dos Tolos (de abril)"; na Itália e na França ele é chamado respectivamente ‘pesce d'aprile’ e ‘poisson d'avril’, literalmente "peixe de abril". Na Galiza, Espanha, o é conhecido como o dia dos enganos.
No Brasil, o primeiro de abril começou a ser difundido em Minas Gerais, onde circulava ‘A Mentira’, um periódico de vida efêmera. Esse jornal foi lançado em 1º de abril de 1828, com a notícia do falecimento de Dom Pedro, desmentida no dia seguinte. ‘A Mentira’ saiu pela última vez em 14 de setembro de 1849, convocando todos os credores para um acerto de contas no dia 1º de abril do ano seguinte, dando como referência um local inexistente.
No imaginário de crianças e adultos, a mentira está associada à figura de Pinóquio, personagem que apareceu pela primeira vez em 1883, no romance ‘As aventuras de Pinóquio’, escrito pelo italiano Carlo Collodi. Depois de inúmeras adaptações, o personagem foi imortalizado no filme homônimo de Wall Disney. Toda vez que o boneco de madeira mente seu nariz cresce, como uma forma de evidenciar que a verdade sempre aparece.
Em 1999, a atriz Fernanda Montenegro, apareceu na capa do ‘Jornal Cruzeiro do Sul’ exibindo sua conquista: Uma estatueta do Oscar por melhor atriz . Na mesma página, haviam notícias como: a elevação do salário-base do operário brasileiro para R$ 3 mil em razão da ‘crescente oferta de emprego’, inauguração da Universidade Pública de Sorocaba, contratação do jogador Ronaldinho pelo São Bento, o Rio Sorocaba com as águas azuis e um pescador exibindo um dourado de 7 quilos no trecho urbano. A Rodovia Raposo Tavares duplicada, a descoberta das curas da Aids e da obesidade. O rendimento da poupança a 20% ao mês, e o dólar a R$ 0,50 abriam a seção econômica. A capa ‘verdadeira’ havia sido transferida para a página 2. As ‘falsas’ notícias, no entanto, renderam muita leitura.  A brincadeira causou muitos telefonemas à redação, porém, a maioria, para elogiar a iniciativa, segundo o redator chefe, Djalma Benette.  | Wikipédia
- // -
Acossado por um volume exageradamente alto de más notícias, o povo brasileiro sente, neste momento, a necessidade de extravasar suas frustrações e  ansiedade. Às vezes, um pouco de fantasia e bom humor ajudam a suportar e a superar a realidade. 
Embora esta matéria tenha sido publicada no Dia da Mentira, ela pretendeu se ater à verdade. Portanto, você leitor pode acreditar em cada palavra..., ou não.



 (JA, 1-Abr16)



segunda-feira, 7 de março de 2016

Fica... para sempre...



Onde menos deveria encontrar você, é onde você se faz mais presente. De alguma maneira você se desprende de onde possa estar, e vem estar em mim.  Fisicamente você faz parte do meu passado. Perdemos o contato desde então.  Entretanto, estando você onde estiver, com uma frequência cada vez maior e recorrente, acontece de acabar presente no meu dia a dia.  
Mas isso não ocorre sempre. Às vezes, passam muitos dias sem você aparecer. Considero isso bom, pois me ajuda a aprender estar só.  Porém, outras vezes, você aparece na minha mente, e eu quase me sufoco com a sua ‘presença’. Ouço chamar meu nome, corro ao seu encontro, e digo ‘Vá embora! Vá, por favor! Então, passo a me sentir tão infeliz, que me arrependo e digo: ‘Não, não vá! Fica! Fica para sempre!’ Há em mim uma luta entre o desejo de te esquecer, e o de ficar louco sem a sua lembrança.
Entendo que você passou a viver num mundo incorruptível, onde o tempo não passa, onde tudo é eterno.  Embora nos 'encontremos' frequentemente, saiba que nem sempre consigo compor nitidamente a sua imagem, tão abalado fico ao ser levado para aqueles momentos especiais que compartilhamos. É o que acontece quando,  às vezes, não consigo identificar certas músicas que fizeram parte da minha história, algum quadro famoso, um poema relido várias vezes, uma estrela no céu, uma flor no jardim.
Há em todos nós um dom perverso que permite que só raramente vejamos o outro lado das pessoas. Aquele lado que, embora oculto, é muito importante pois que contém a sua essência. Lembro de me preocupar em descobrir esse seu outro lado, se é que existia. Imaginava então que, se houvesse, provavelmente seria ainda mais belo do que o conhecido.  


(JA, Mar16)



Baseado no poema: ‘Fica...para Sempre’, de Virgílio Ferreira  
Imagem do filme: ‘A Incrível História de Adaline’ (Blake Lively)

     

Fica... para sempre...
Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe.Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares.
          Mas nem sempre.
         Quantos dias se passam sem tu apareceres.
                  E, às vezes, penso é bom que assim seja para eu aprender a estar só.
Mas de outras vezes tu rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença.Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor.
E eu sinto-me logo tão infeliz.E digo-te não vás.
Fica.Para sempre.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Velho Novo





Paulo Leminski perguntou  em um de seus poemas: ‘Que podia um velho fazer nos idos de 1916 a não ser pegar pneumonia, deixar todos os bens para seus filhos, e virar fotografia?’. Li isso, pensei, pensei, e um turbilhão de pensamentos veio à minha cabeça. Quanta mudança, em um pouco de 90 anos!!!!!!                                                                                       
No Brasil, no século passado, os tais ‘velhos’ eram bem mais moços e a expectativa de vida beirava os 34/35 anos. E hoje??????  Em 2007 ,a expectativa de vida já havia saltado para 72 anos, em 2010 para 75 anos. É, as coisas mudaram….. A Medicina evoluiu, o foco para  alimentação se tornou mais presente, os valores sociais são mais ‘discutidos’, os comportamentos mudaram.  Em vez do sexagenário aposentado, há um velho novo nas ruas.
Quem será ele?                                                                                                               
Um individuo ativo, um ser humano experiente, sábio, um trabalhador produtivo , um bom conselheiro. Mas só isso? Não. São pessoas bem resolvidas, repletas de novos ideais, autônomas e independentes , que constroem novos vínculos sociais, afetivos e sexuais, cuidam de si próprias, enfrentam novos desafios, se preocupam com a família, mas também com sua saúde, seu trabalho (produtividade), seu lazer, sua qualidade de vida. Deixaram de ser ‘os chinelos velhos deixados nos cantos da casa’. 
O Brasil está preparado para essa mudança?
Há politicas publicas que respeitem e favoreçam esse ‘novo idoso’ que perambula pelas ruas? E nós, estamos preparados para ouvir de nossos pais ou avós, que não podem cuidar de nosso filho hoje porque têm um baile, ou um campeonato de dominó, ou um jogo de vôlei adaptado contra o clube ‘X’?  E quando nos trouxerem seus novos parceiros? E quando passarem a se vestir como nós? E quando forem campeões de corrida em sua faixa etária e nós não?  E nossas mães (antes senhoras recatadíssimas e obedientes aos desejos do ‘mundo’), e hoje belas senhoras, tão jovens quanto seus filhos e até netos. Alegres, atraentes, dançarinas, voluntárias de importância para muitos necessitados. É, o tema é amplo e riquíssimo.
Vamos refletir, falar sobre isso, para podermos ir internalizando essas mudanças para que possamos entender melhor esse ‘novo velho’ ou ‘velho novo’. Isso é necessário para que possamos respeitar nossos idosos em sua nova característica, ou até incentivar os nossos idosos que persistem no modelo antigo a aderir.  
Vamos trabalhar dentro de nós, de nossos filhos, pais,  avós, amigos e sociedade um conceito de ‘Envelhecimento Ativo’, onde há um processo de otimização das oportunidades de saúde física, mental, psicológica, social e cultural  a medida que se envelhece. Um processo que permita às pessoas desenvolverem o seu potencial de bem estar físico, fisiológico, psicológico, mental e social,  ao longo de toda sua vida, participando conforme suas necessidades, desejos e capacidades.
Já podemos então nos preparar para o envelhecimento, desde que nascemos? SIM.
Parafraseando Leminski: “O que fazem os velhos de hoje, e o que farão os de 2020, 2025 ou 2030? Nós poderemos ser um deles...”
Vamos pensar nisso!”
De: ‘Psicologia e Comportamento’.

“O segredo da mudança é focar toda a sua energia, não em brigar com o velho, mas em construir o novo.”   Sócrates


(JA, Fev16)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Redes Sociais, Dialogo


Andei lendo nos jornais alguns artigos sobre a intolerância, praga que assola grande parte do mundo, inclusive o nosso Brasil cor de anil. Em especial, trataram do uso abusivo da internet e das chamadas "redes sociais" (frequentemente antissociais) para propagar tendenciosidade, paranoias, calúnia e negação do outro como pessoa. Pesquisas têm constatado que no Facebook e plataformas semelhantes, as pessoas tendem a compartilhar "informações" que vêm ao encontro de seus preconceitos, sem se darem ao trabalho de apurar a veracidade dos fatos.
Vou apresentar resumidamente três artigos. O primeiro, inicialmente publicado no "Washington Post", saiu em "O Estado de S. Paulo" de 18/1/16, sob o título "O que aprendi sendo 'trolado'", e o autor é Fareed Zakaria, jornalista americano nascido na Índia. Conta ele que recentemente foi alvo da chamada "trolagem", palavra que designa postagens agressivas em que indivíduos inventam informações provocadoras a respeito de uma pessoa ou grupo social e passam a difundi-las. No caso, certo "website" postou um texto dizendo Zakaria teria defendido o estupro "jihadista" de mulheres brancas. Sem atentarem para a falsidade e o absurdo da acusação, muitas pessoas, e também outros websites,  passaram a repassá-la. Não faltou quem exigisse a demissão de Zakaria, sua deportação e até mesmo a morte. Houve mesmo quem telefonasse tarde da noite para sua casa, despertando e ameaçando as filhas menores.
"Bastaria − escreve ele − um minuto para clicar no link e ver que a postagem original partira de um "website" de notícias falso (...). Bastaria um pouco de bom senso para perceber o absurdo da acusação. Mas nada disto importava. As pessoas que propagaram as informações não estavam interessadas nos fatos, mas em nutrir o preconceito."
Zakaria conclui defendendo a criação de mecanismos melhores para que as pessoas distingam a verdade da mentira (é claro que ele está pensando em pessoas que efetivamente queiram fazer essa distinção). E antes do final menciona a experiência certa vez feita por dois psicólogos. "Eles dividiram os alunos em dois grupos com base nas respostas que deram a um questionário: os muito preconceituosos e aqueles com menos preconceito. E solicitaram a cada grupo que discutisse alguns temas controvertidos. Posteriormente as perguntas foram formuladas novamente. Os estudos revelaram um padrão surpreendente. Apenas conversando um com o outro, os alunos preconceituosos se tornaram ainda mais radicais e os tolerantes mais tolerantes."
O segundo artigo, também publicado no "Estadão" (5/2/16 a partir de um original do "New York Times"), é de autoria de Thomas Friedman e narra a trajetória de Wael Ghonim, egípcio que teve participação importante no movimento da Praça Tahir, que levou à derrubada da ditadura de Hosni Mubarak. Em julho de 2010, ao ver na internet a foto de um jovem que fora morto pela polícia, Ghonim criou no Facebook uma página anônima sob o título "Somos Todos Khaled Said" (assim se chamava a vítima). Em três dias, a página teria mais de 100 mil seguidores, logo eles seriam milhões.
Hoje, com o olhar retrospectivo, ele lamenta que o movimento tenha fracassado em construir um consenso e que a luta política tenha levado a uma polarização extremada. 'Partidários do Exército e radicais islâmicos usaram redes sociais para difamar uns aos outros enquanto o centro democrático, que Ghonim e muitos outros ocupavam, era marginalizado. Sua revolução foi roubada pela Irmandade Muçulmana e, quando esta fracassou, pelo Exército, que então deteve muitos dos jovens seculares que primeiro levaram sua energia às ruas.'
Na sequência do artigo, Friedman transcreve o que Ghonim concluiu sobre as redes sociais − e que, no meu modo de ver, se aplica muito bem à presente situação brasileira. "Primeiro, não sabemos como lidar com rumores. Boatos que confirmam os preconceitos das pessoas agora recebem crédito e são disseminados. (...) Segundo, tendemos a nos comunicar somente com pessoas com as quais concordamos (...). Em terceiro lugar, discussões "online" rapidamente originam multidões enfurecidas. É como se esquecêssemos que as pessoas por trás das telas são realmente pessoas de verdade. Em quarto lugar, tornou-se realmente muito difícil mudar nossas opiniões. Em razão da velocidade e da concisão das redes sociais, somos forçados a apressar conclusões e escrever opiniões afiadas em 140 caracteres sobre complexos temas mundiais. (...) Em quinto lugar − algo que, segundo ele, é a questão mais crucial −, atualmente nossas experiências nas redes sociais são projetadas de tal forma que beneficiam a publicação em detrimento dos compromissos, os 'posts' em relação às discussões, comentários rasos em vez de conversas profundas. É como se concordássemos que estamos aqui para falar para cada um, em vez de falar com cada um."
Finalmente, no artigo "Uma Guerra Civil Estúpida" ("Folha de S. Paulo 7/2/16), Clóvis Rossi cita uma passagem em que o Pew Research Center, dos Estados Unidos, retrata o clima de guerra civil existente em certos setores da opinião pública americana. "Muitos, em cada partido, negam, agora, os fatos dos outros, desaprovam o estilo de vida dos outros, evitam a vizinhança dos outros, impugnam os motivos dos outros, não conseguem digerir as fontes de notícias dos outros e trazem diferentes sistemas de valores para instituições fundamentais como religião, casamento e paternidade. (...) É como se pertencessem não a partidos rivais, mas a tribos alienígenas."

Com toda a razão, Rossi entende que o diagnóstico vale mais ainda para o Brasil. Não se trata, diz ele, de pedir neutralidade às pessoas, e é realmente desejável que elas tomem posições diante dos grandes temas nacionais e internacionais. O que não cabe, porém, é a pretensão de se achar dono da verdade e negar que os que estão em outras posições possam ter pelo menos uma parte de razão.” Bôa Nova

"Naturalmente, somos levados a dar atenção, a ouvir, àqueles que repetem as nossas próprias ideias."
(JA, Fev16)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Robert Waldinger - O que torna uma vida boa?

Lições do mais longo estudo sobre a felicidade


 


O que nos mantém felizes e saudáveis à medida que a nossa vida decorre? Se pensam que é a fama e o dinheiro, não estão sozinhos — mas, segundo o psiquiatra Robert Waldinger, estão enganados. Enquanto diretor do estudo de 75 anos sobre o desenvolvimento adulto, Waldinger tem acesso sem precedentes a dados sobre a verdadeira felicidade e satisfação. Nesta palestra, descreve três importantes lições aprendidas com esse estudo, assim como a sabedoria prática, velha como a Sé de Braga, sobre como construir uma vida longa e preenchida.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Itaú - Feliz 2016

Essa mensagem é para quem gosta de estar sempre ao lado dos amigos e da família, dentro ou fora da internet.





É lindo ver o mundo se tornar digital.
Mas todos nós precisamos vigiar pra que ele nunca deixe de ser humano e pessoal.

Afinal, fomos nós que criamos a tecnologia para servir a raça humana.
A internet que nós criamos veio para melhorar e mudar muitas coisas,
mas tem coisas que ela não pode e não deve mudar.

Amigos não podem ser feitos só pela internet, 
nem amizades, nem laços de família mantidos por e-mails e mensagens curtas.
Não é o GPS que vai guiar a sua vida.
Nem é papel do Waze ensinar seu filho qual é o melhor caminho a tomar na hora da tormenta.
Afinal, não é o wi-fi que mantém a nossa conexão com aquelas coisas inexplicáveis e divinas 
que só a raça humana tem a senha.

Por isso, lembre-se: é fim de ano.
Feche os olhos, olhe para dentro e faça um download só de coisas boas.

Que aí você vai ver que, de todos os aplicativos que nós fomos capazes de criar, nenhum é melhor que o aplicativo que você tem dentro de você chamado coração.

Itaú. Digital, mas pessoalmente feito pra você.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O Natal é você (Papa Francisco)


O Natal costuma ser sempre uma ruidosa festa; entretanto se faz necessário o silêncio, para que se consiga ouvir a voz do Amor.
Natal é você, quando se dispõe, todos os dias, a renascer e deixar que Deus penetre em sua alma.
O pinheiro de Natal é você, quando com sua força, resiste aos ventos e dificuldades da vida.
Você é a decoração de Natal, quando suas virtudes são cores que enfeitam sua vida.
Você é o sino de Natal, quando chama, congrega, reúne.
A luz de Natal é você quando com uma vida de bondade, paciência, alegria e generosidade consegue ser luz a iluminar o caminho dos outros.
Você é o anjo do Natal quando consegue entoar e cantar sua mensagem de paz, justiça e de amor.
A estrela-guia do Natal é você, quando consegue levar alguém, ao encontro do Senhor.
Você será os Reis Magos quando conseguir dar, de presente, o melhor de si, indistintamente a todos.
A música de Natal é você, quando consegue também sua harmonia interior.
O presente de Natal é você, quando consegue comportar-se como verdadeiro amigo e irmão de qualquer ser humano.
O cartão de Natal é você, quando a bondade está escrita no gesto de amor, de suas mãos.
Você será os “votos de Feliz Natal” quando perdoar, restabelecendo de novo, a paz, mesmo a custo de seu próprio sacrifício.
A ceia de Natal é você, quando sacia de pão e esperança, qualquer carente ao seu lado.
Você é a noite de Natal quando consciente, humilde, longe de ruídos e de grandes celebrações, em silêncio recebe o Salvador do Mundo.
Um muito Feliz Natal a todos que procuram assemelhar-se com esse Natal.

Papa Francisco

domingo, 20 de dezembro de 2015

Carregando as Baterias

Trata-se de uma belíssima animação da Malásia, que conta a comovente história de uma idosa que vive sozinha em sua casa, até a chegada de uma encomenda curiosa: um pequeno robô para ser seu amigo eletrônico. 
Um vídeo para refletir não apenas sobre o poder da amizade, mas da simbologia universal da bateria como representação desta força vital, da energia que nos mantém vivos, nos faz movermo-nos, viver e renovar a esperança na vida, no trabalho, na amizade, no amor e tudo mais... 
Impossível não pensar na vida atual, em que solitários se relacionam cada vez mais com pessoas virtuais, via redes sociais. Que muitos perfis falsos nas redes sociais são inclusive robôs que servem para disseminar propagandas ou vírus. Que muitos agem como autômatos diante de um fone celular, um tablet, notebook, quando conectados ao mundo digital. 
O mais comovente na história é esta sutil ironia de a máquina ter a consciência de que todos somos alimentados por baterias, e quando a dele acaba, a sua amiga idosa sempre troca a gasta por uma nova, permitindo que ele viva eternamente. Entretanto, quando a situação se inverte, é tocante ver uma máquina colocando suas pilhas novas e usadas no bolso da idosa, tentando reanimá-la. Um pequeno robô que age como uma ingênua criança descobrindo os mistérios da vida. 
Quantas pessoas hoje em dia têm como melhores amigos seus equipamentos eletrônicos? Quantos vivem como robôs, de forma mecânica? Quantos humanizam suas máquinas, através das trocas - não de bateria, mas - de experiências de vida em rede? 
Há que se pensar na educação mecanizada, quando esta é calcada apenas na distribuição de equipamentos eletrônicos - babás digitais - para substituir o papel social do educador, seja pai ou professor. 
Até prova em contrário, as máquinas não têm alma, mas necessitam da troca ou recarga de baterias para sobreviver. As pessoas, que possuem alma, necessitam da troca de energia e também de experiências com outras pessoas para um melhor viver. 
Um belo vídeo para refletir sobre o valor da amizade, das pessoas, das máquinas, da vida, da educação e muito mais.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Marilia Pera canta Roberto Carlos (120... 150... 200 Km por Hora)

Marília Pêra fez uma versão para 120… 150… 200 Km por Hora que ficou pra história. Quando Roberto Carlos canta parece uma briga de amantes, uma pequena fossa. Marília Pêra fez expressar um tratado da vida moderna. A sua experiência cênica foi posta a serviço da música de forma sublime e magistral, com uma voz linda, uma expressão no vazio que a música alerta. Ao final, uma saída de palco na mesma intensidade e compasso que a música transmite: o contraponto dos 200 Km/h com a inércia e vazio que a vida moderna pode proporcionar.



LETRA

As coisas estão passando mais depressa
O ponteiro marca 120
O tempo diminui
As árvores passam como vultos
A vida passa
O tempo passa
Estou a 130 as imagens se confundem
Estou fugindo de mim mesmo
Fugindo do Passado
Do meu mundo assombrado de tristeza de incerteza
Estou a 140
Fugindo de você


Eu vou
Voando pela vida
Sem querer chegar
Nada vai mudar meu rumo
Nem me fazer voltar
Vivo fugindo
Sem destino algum
Sigo caminhos que me levam
A lugar nenhum


O ponteiro marca 150
Tudo passa ainda mais depressa
O amor, a felicidade
O vento afasta uma lágrima
Que começca a rolar no meu rosto
Estou a 160
Vou acender os faróis
Já é noite
Agora são as luzes que passam por mim
Sinto um vazio imenso
Estou só na escuridão
A 180
Estou fugindo de você


Eu vou
Sem saber pra onde
Nem quando vou parar
Não, não deixo marcas no caminho
Pra não saber voltar
Às vezes, sinto que o mundo
Se esqueceu de mim
Não, não sei por quanto tempo ainda
Eu vou viver assim


O ponteiro agora marca 190
Por um momento tive a sensação
De Ter você ao meu lado
O banco está vazio
Estou só
A 200 por hora
Vou para de pensar em você
Pra prestar atenção na estrada


Vou sem saber pra onde
Nem quando vou parar
Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar
Às vezes
Às vezes sinto que o mundo
Se esqueceu de mim
Não, não sei por quanto tempo ainda
Eu vou viver assim


Eu vou voando pela vida
Sem querer chegar
Nada, nada vai mudar meu rumo

Nem me fazer voltar